A arte do desencanto

Desencantar-se.

Quando desencantar-se...

Esta é uma combinação de fonemas que muito me agrada aos ouvidos, menos ao gosto e ao coração. Está certo que desencantar-se de certas coisas, situações e pessoas na vida às vezes nos é um grande favor vindo a euforia de perceber-se isso mais tarde, quando maduros, mas a verdade é que se trata de um incômodo visível a si mesmo e pelos outros.
Estar alheio ao mundo num dia qualquer, ocupado com seu trabalho e problemas diversos, faz com que você esteja absorvido numa atmosfera nada dinâmica, até que uma música que muito lhe representou os sentidos tempos atrás, se faz notada, e você para.
Dá-se conta de quanto tempo não se deixava nortear por aquilo. Nota o quanto ela foi incrível na sua pré-adolescência, no início do seu namoro, numa viagem com amigos, num momento de crise… Bom, hoje ela só está tocando no rádio e não faz mais sentido.

Desencantou-se.

Igual ser apaixonado por uma garota, saber que ela não demonstra o mínimo interesse, mas mesmo assim lutar por ela como se fosse o maior prêmio que seu ego pudesse dar a você e, quando a tem nos braços, apaixonada por você, falta algo. Falta o desafio? Falta aquilo que o encantava enquanto se havia dúvida.

Casar-se e, na convivência do dia a dia, não suportar hábitos e manias pífios que destróem namoros longos e acabam com a cumplicidade rara entre os casais.

Desencantado está!

Batalhar desde os tempos árduos dos estágios de faculdade para entrar naquela multinacional incrível e construir a carreira dos sonhos, onde lá irá se aposentar e desfrutar das delícias da vida. Chegar nesta multinacional e se deparar com pessoas mesquinhas, frias, totalmente focadas em dinheiro, ser tratado apenas como um número, ter o tapete puxado incontáveis vezes, perder noites de sono para cuidar de tais projetos e não ser reconhecido por isso, deixar ser explorado, ser motivo de piada… daí vem aquela dor de barriga todos os dias de manhã quando você abre os olhos em sua cama, pensando naquela sua mesa de escritório cheia de papéis…

Houve um desencanto.

Mas  eu sei que, ainda assim, existem coisas que nos machucam, entristece, irritam e, ainda assim, nos causam uma sensação forte de encanto.
O amor verdadeiro em qualquer de suas vertentes pela vida. É sempre um encanto.

Mas encantar-se não é tão poético e avassalador quanto desencantar-se.

Assinado:  uma vítima e causadora constante do desencanto.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: